Grampos revelam tratativas de empresários para prorrogar contratos de água e esgotos e obter auxílio do deputado José Guimarães
Relatório de Inteligência da Operação Águas Claras cita o deputado José
Guimarães (PT/CE), vice-líder do governo na Câmara, na investigação
sobre empresários acusados de corrupção e fraudes em licitações de
prestadoras de serviço a autarquias de água e esgoto de municípios de
quatro Estados, inclusive o Ceará.
A Águas Claras foi desencadeada segunda-feira, em Sorocaba (SP).
Força-tarefa integrada pela Polícia Civil e pelo Grupo de Repressão ao
Crime Organizado (Gaeco) da cidade, braço do Ministério Público de São
Paulo, prendeu 18 investigados e fez buscas em 25 endereços domiciliares
e comerciais. O alvo principal é a Allsan Engenharia e Administração e
seus sócios, os empresários Reynaldo Costa Filho e Moisés Ruberval
Ferraz Filho. ...
Guimarães é irmão de José Genoino, ex-presidente do PT, condenado como
mensaleiro a 6 anos e 11 meses de prisão. Em julho de 2005, quando
Guimarães exercia mandato de deputado estadual, um assessor dele na
Assembleia Legislativa do Ceará, José Adalberto Vieira da Silva, foi
preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com
R$ 200 mil em uma mala e US$ 100 mil escondidos na cueca. Genoino
renunciou ao cargo dois dias depois.
A operação não flagrou telefonemas de Guimarães, mas pegou citações
frequentes ao seu nome em diálogos grampeados dos empresários da Allsan
que chamam o deputado ora pelo nome, ora por "cueca", ora por "capitão
cueca". Cópia do relatório será enviado ao Ministério Público do Ceará.
O contato de Reynaldo e Moisés na Companhia de Água e Esgoto do Ceará
(Cagece) seria Antonio Alves Filho, o Cony, diretor comercial. A Cagece
mantém contrato de R$ 8,94 milhões com a Allsan.
O monitoramento, autorizado pela 3.ª Vara Criminal de Sorocaba, revela
intensas tratativas dos empresários para obter prorrogação contratual.
Como encontraram dificuldades na investida, aproximaram-se de Cony que,
segundo a operação, teria sido indicado por Guimarães para o cargo na
Cagece. O deputado nega categoricamente influências na empresa de águas.
À página 57, o relatório diz: "José Nobre Guimarães é deputado federal
eleito pelo Partido dos Trabalhadores. O apelido ‘cueca’ está ligado ao
seu nome face às denúncias que o envolvem no escândalo do flagrante da
Polícia Federal conhecido por ‘dólares na cueca’ no ano de 2005".
"Por diversas vezes Reynaldo e Moisés citaram o pagamento de propinas
ao deputado, alegando que o mesmo ‘ajuda’ nas negociações junto à
Cagece, forçando a renovação do contrato", assinala o documento. Uma
citação fala em suposto repasse de R$ 100 mil ao irmão de Genoino.
Cony trocou telefonemas com Reynaldo e os dois se encontraram. "O teor
dos diálogos entre os investigados denota o possível recebimento de
numerários (propinas) por parte de Cony para intermediar a favor da
Allsan junto à Cagece para a prorrogação e aditamento do contrato de
prestação de serviços de leitura e emissão de faturas junto à companhia
estatal, tudo em face do poder de decisão que exerce em função do cargo
ocupado", assinala o relatório.
"Os encontros entre Reynaldo e Cony continuam sendo realizados
mensalmente, encontros esses que indicam o pagamento de propinas por
parte da Allsan Engenharia para a continuidade dos serviços que a
empresa presta naquele Estado", destaca o relatório.
A Operação Águas Claras aponta os passos de "uma quadrilha" -
empresários que formaram a Associação Brasil Medição para "ocultar
reuniões secretas onde os negócios escusos do bando eram combinados para
burlar certames licitatórios destinados à contratação de serviços
técnicos especializados de leitura de medidores".
Fonte: Estadão

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