Vergonha alheia.
É aquela vergonha que a gente sente pelo outro, pelos outros, vergonha que um outro deveria sentir e não sente, não está nem aí.
Eu morro de vergonha alheia. Talvez devesse indignar-me, ficar
irritado, esbravejar, mas confesso um certo desalento, um desencanto que
leva apenas à vergonha alheia.
Imagina um rei. Imagina um rei em pleno século 21. Imagina um rei de
um país que está à beira da falência, com mais de 20% de desemprego,
como é o caso da Espanha. E o que esse rei idiossincrático e fora de
moda resolve fazer para ocupar seu tempo? Vai à África caçar elefantes,
com direito a foto com rifle na mão e a pobre e mastodôntica vítima ao
fundo. Era para sentir raiva, mesmo, mas não.
Vergonha…
Bem, como disse um gaiato numa rede social por aí, o rei mata
elefante enquanto seus súditos matam touros, afinal são todos bem
treinados desde que matavam índios nas Américas.
Vergonha…
Índios. Quinta-feira foi dia do índio. Antigamente, lembrou o Fernando Rodrigues, destaFolha,
o Brasil se recordava de seus índios pelo menos nesse dia. Tinha
homenagem, hino, festinhas. Hoje, os índios que se danem, estão no
noticiário apenas como bandidos que invadiram as terras que fazendeiros
lhes roubaram na Bahia, pobres pataxós.
Vergonha…
Dois dos mais altos magistrados do país trocam ofensas pela imprensa.
Antigamente, juízes se manifestavam apenas por intermédio dos autos,
nada mais. Agora, posam na cama para a revista Caras e batem boca via
colunas de jornal. Peluso acusa de inseguro Barbosa que acusa Peluso de
racista, entre outras carícias. Mesmo que os dois estejam certos, o que
dá para sentir em relação a isso?
Vergonha…
Bastou a presidente da República dar um passa-moleque que os
banqueiros amarelaram e baixaram os juros mais altos do mundo. Pode não
dar em nada, como torcem os que odeiam Dilma. Mas, aqui entre nós, os
dois maiores bancos privados do país terem juntos, em 2011, R$ 25
bilhões de lucro faz a gente sentir o quê?
Vergonha…
E a cachoeira do bicheiro Carlinhos encharca a República e suas
vestais de nomes gregos ou não. E lá vem a CPI para dar holofote aos que
pregarão moral, justiça e ética. Quem estará entre os membros da CPI?
Elle, ninguém menos que Fernando Collor de Mello.
Vergonha até chorar…
Luiz Caversan é jornalista e consultor na área de comunicação corporativa. Foi repórter especial, diretor da sucursal do Rio da Folha, editor dos cadernos “Cotidiano”, “Ilustrada” e “Dinheiro”, entre outras funções. Escreve aos sábados para a Folha.com.
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