Sem condenação em órgão colegiado, ex-governador do DF é ficha-limpa e já aparece em pesquisas eleitorais
Três
anos depois de passar 60 dias preso por corrupção e ter a imagem
pública devastada por um vídeo em que aparece recebendo uma bolada de
dinheiro, o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda
ainda pode voltar à vida pública. Até hoje, não há decisão colegiada da
Justiça sobre as acusações que pesam contra o ex-governador. Pesquisas
encomendadas por partidos locais e por empresários apontam Arruda como
um dos favoritos nas eleições para o governo local em 2014. Como não
sofreu condenação de órgãos colegiados, nada impede que Arruda se
candidate.
Até
hoje o Superior Tribunal de Justiça (STJ) ainda não decidiu se acolhe
ou não a denúncia que o Ministério Público Federal demorou dois anos
para fazer contra Arruda, o ex-governador Paulo Octávio e mais 36 outros
acusados. Em agosto do ano passado, o ministro Arnaldo Esteves, relator
do caso, desmembrou a denúncia e abriu prazo para notificar os réus a
se manifestar antes de levar as acusações formais à Corte Especial. A
expectativa no tribunal é que isso só ocorra em maio. Ou seja, seria
apenas o início do processo contra o ex-governador, uma situação que
pode se arrastar por anos até a sentença.
-
Esse é o nosso Judiciário. No Brasil é assim. É uma resposta cínica,
mas é isso que acontece - afirmou David Fleischer, professor de Ciência
Política da Universidade de Brasília (UnB).
O
ex-governador foi acusado de comandar um esquema de desvio de dinheiro
público para enriquecimento pessoal e para a compra de apoio
parlamentar, o chamado mensalão do DEM. As cenas de corrupção explícita
foram filmadas pelo ex-secretário de Assuntos Institucionais, o delegado
Durval Barbosa. Em meio a série de arrecadação de distribuição de
propina, documentada em detalhes por Barbosa, o Ministério Público
Federal chegou a cogitar a possibilidade de pedir intervenção do DF. Foi
o escândalo mais rumoroso da capital.
Mas,
com a demora de resultados práticos das investigações, Arruda pode
voltar à cena política com força total. Pesquisas feitas pelos
institutos Exata e do Dados, entre dezembro de 2012 e janeiro deste ano,
apontam que Arruda seria um dos candidatos mais fortes ao governo
local. Ele aparece com volume de intenções de voto igual ou até maior
que o do atual governador, Agnelo Queiroz (PT).
Ciente
de seu potencial, o ex-governador vem discretamente preparando o
caminho de volta ao centro do poder. Segundo antigos interlocutores, ele
poderia voltar como candidato ao governo ou a deputado. Poderia também
se tornar um cabo eleitoral de peso. Arruda se mudou com a mulher para
São Paulo ano passado, mas tem mantido frequentes contatos políticos em
Brasília.
Por Jailton de Carvalho
Semana passada, teve pena de 5 anos de prisão por fraudes em obra
Mesmo
fora do alcance da Lei da Ficha Limpa, o ex-governador José Roberto
Arruda tem sido alvo de uma coleção de processos. No início da última
semana, Arruda foi condenado pela 4ª Vara Criminal de Brasília a cinco
anos e quatro meses de prisão por irregularidades na reforma do ginásio
Nilson Nelson. Ele poderá recorrer e postergar ainda mais a decisão
final da Justiça local sobre o caso e, com isso, manter o caminho livre
em direção às urnas em 2014.
Arruda
foi obrigado a deixar o cargo de governador por uma decisão do Tribunal
Regional Eleitoral em 2010. Mas o caso não se enquadra nas regras da
Lei do Ficha Limpa. Apesar de ser um colegiado, o TRE do DF aplicou a
punição ao ex-governador por ele ter deixado o DEM e o enquadrou na
legislação eleitoral que trata de infidelidade partidária. Esse tipo de
processo não proíbe um político de se candidatar nas eleições seguintes.
Em
agosto do ano passado, Arruda foi condenado por violar, em 2001, o
painel eletrônico do Senado. O ex-governador recorreu, e o caso ainda se
arrasta no Tribunal Regional Federal da 1ª Região. O ex-governador
responde ainda a duas ações por improbidade administrativa na 2ª Vara
Criminal. É alvo também de uma investigação sobre desvio de quase R$ 9
milhões destinados ao patrocínio do jogo entre Brasil e Portugal, em
2009, no Distrito Federal.
O
Ministério Público local pediu o bloqueio de parte dos bens de Arruda
em duas ações cautelares. Numa delas, a Justiça reteve R$ 1 milhão. Mas,
para os promotores que iniciaram as investigações da Operação Caixa de
Pandora, o valor seria irrisório diante do volume de recursos que teria
sido desviado pelo grupo do ex-governador, estimado em mais de R$ 1
bilhão de 2005 até 2010.
Mesmo com todos esses problemas, Arruda se mantém como um dos principais caciques da política brasiliense.
-
Ele tem pelo menos um terço dos eleitores - afirma Elizabeth Flamínio,
diretora do Instituto Dados, especializado em pesquisas eleitorais.
O
ex-deputado Raimundo Ribeiro, um dos principais interlocutores de
Arruda, nega que o amigo queira voltar ao governo. O ex-governador teria
alimentado este sonho por longo tempo. Mas a condenação criminal no
início desta semana teria provocado forte impacto.
-
Tenho ouvido falar das pesquisas (favoráveis a Arruda). Mas nas últimas
vezes em que nos encontramos, ele falou mais do processo a que está
respondendo - disse Ribeiro.
Fonte: O Globo


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